Análise: Maior do que a música que canta, Luan Santana vence por ser de verdade

Há uma força ali que precisa de tempo para ser entendida. Algo que não está nas estratégias de divulgação, na idolatria à beleza nem nos hits de verão que se paga para colocar nas emissoras de rádio. Luan Santana é um case a ser estudado mais a fundo do que enxergam nossas vãs fobias do que é pop com sotaque interiorano e que as inteligências adoram defenestrar por ter conseguido justamente aquilo que elas passaram a vida sonhando: falar com as massas. O maior artista pop jovem brasileiro, com altos e baixos no repertório, tem verdade de essência, um campo técnico a se desenvolver e um bonde estratégico que pode pensar em pegar antes que seja tarde. E, sobretudo, aquilo que parece ser o seu maior trunfo: um amor ao próximo transbordante.

Luan é de verdade. Acertou ao não se lançar em dupla desde o show de Bela Vista, quando tinha 15 anos e tocou por algo mais do que uma caixa de cerveja. Bela Vista, Mato Grosso do Sul, a mesma terra de onde saiu Ney Matogrosso, é uma pequena cidade na fronteira com o Paraguai de cinco mil habitantes que o viu cantar antes de todos. Há uma luz quando ele está em cena, uma estrela tão forte capaz de segurar suas fragilidades e transformá-las em força criando uma persona maior do que sua própria música.

Seu repertório passou por  mutações até chegar ao projeto mais novo, Viva, partindo de um material genético que vem da música sertaneja, como mostra ao longo de seu novo show em muitos momentos e, mais diretamente, na parte que remete aos anos em que cantava Muda de vida, Chico Mineiro e Cabocla Tereza.

Luan é sertanejo,  mas sua carreira abre janelas que ele pula apenas por um breve momento para retornar no instante seguinte. Seja por conservadorismo, devoção ao contrário às fãs ou falta de segurança com uma fórmula a ser descoberta, o fato é que Luan pode estar perdendo um capital artístico interessante. Cuba foi um ótimo balão de ensaio. Quando foi fazer o clipe de Acordando o Prédio, em 2016, com o talentoso Alejandro Pérez, diretor dos clipes de muitos latinos, venceu (muito mais na canção do que no próprio clipe) ao fazer o reggaeton abraçar o sertanejo com uma irmandade genuína. Ali, pareceu querer decolar para o mercado latino de vez, mas retornou antes que o portal se fechasse.

Os cubanos  o conheceram ali, mesmo não sendo a música uma investida definitiva no mercado espanhol por ser cantada em português. No ano passado, um passo maior foi dado no encontro para cantar Mamita com os meninos do CNCO, um grupo formado em um reality show da emissora Univisión, e produzido por Rick Martin. Luan abandonava o acento sertanejo de vez e, ainda sem cantar em espanhol (essas partes ficaram com os garotos do grupo latino), investia em um típico reggaeton com uma letra que faz sexo sem amor, o inverso do que gosta de cantar.

Uma opção seria encontrar-se nesse mundão latino ou norte-americano de Miami restrito aos latin lovers, o que implicaria em um ato de coragem nem sempre recompensável, correndo o risco de não ser nada de novo e perder o que tem de velho, a exemplo do que houve com Alexandre Pires. Outra seria abandonar a brejeirice e adotar a postura urbana, eletrônica, cool, R&B de produção norte-americana, a exemplo do que houve com Anitta. E a terceira é seguir sendo Luan Rafael Domingos Santana, 27 anos, o cara que teve a coragem de falar de amor em um mundo sertanejo que se resumia à traição e ao sexo de balada, que fez um clipe com uma personagem com câncer que ganhava suas carícias e ouvia ele dizer com muita sinceridade: “Eu não preciso te olhar pra te ter em meu mundo porque aonde quer que eu vá você está em tudo”; que se constrangeu ao cair em uma armadilha linguística nonsense por não falar inglês ao cantar Juntos e Shallow Now, que Paula Fernandes criou para a música Shallow, de Lady Gaga; que mal conseguiu mirar os olhos da folgosa Ivete Sangalo quando a encontrou em um palco e que selou a fidelidade com suas fãs cantando: “Garotas inocentes não merecem chorar por garotos que não têm a verdade no olhar.” Esse é o Luan Santana que já deu certo.

1. Te Vivo (2012)

É o primeiro clipe de sua carreira, com uma história de amor que começa na década de 60. Nos shows, diz se tratar de uma das melhores letras que criou: “Quando me sinto só / Te faço mais presente / Eu fecho os meus olhos / E enxergo a gente / Em questão de segundos / Voo pra outro mundo / Outra constelação / Não dá para explicar / Ao ver você chegando”. O clipe é mesmo comovente. A jovem e bela namorada adoece e ele reforça ainda mais o seu amor: “Eu não preciso te olhar / Pra te ter em meu mundo / Porque aonde quer que eu vá / Você está em tudo / Tudo, tudo que eu preciso / Te vivo.”

2. Tudo Que Você Quiser (2013)

Esse vídeo mostra a força de um garoto que domina uma multidão com um violão nas mãos. Não é para qualquer um. O refrão do uôooo, conforme confirmou ao jornalista Sergio Martins, do programa Veja Música, tem uma perna de inspiração no Coldplay. O cara começou muito bem.

3. Escreve Aí (2015)

Música do Luan Santana Acústico, já tem mais de 154 milhões  de visualizações. A sacada do estalar de dedos mo meio da música é o charme da canção

4. Eu Não Merecia Isso (2015)

O vídeo do single também de seu DVD acústico tem referências da arte pop dos anos 50. 

5. Te Esperando  (2013)

Uma mostra da ultra-sinceridade para o bem e para o mal, uma marca geracional que passou a adotar a linha narrativa despudoradamente oral, sem nenhuma pretensão poética. “E eu vou estar / te esperando nem que esteja velhinha gagá / com 90, viúva, sozinha, não vou me importar”. Os acadêmicos odeiam, mas é o que chega ao coração dos fãs. Ao se mostrar apaixonado, Luan faz com que uma multidão se apaixone por ele também.

6. Garotas Não Merecem Chorar (2013)

O clipe foi feito com imagens enviadas por fãs, um ato generoso. “Garotas inocentes não merecem chorar / por garotos que não têm a verdade no olhar”. A frase dita naquele ano de 2013 ajudou a reforçar a idolatria que estava começando. Enquanto o mundo sertanejo falava em pegação sem limites, Luan se preocupava com o coração alheio. “Eu não te deixaria por uma aventura à toa e nem te trocaria por qualquer outra pessoa só pra matar a vontade, o crime não compensa”. 

7. Tanto Faz (2014)

Um ato curioso: para divulgar a própria música, Luan se passou por ouvinte e ligou para diversas rádios do Brasil pedindo a sua canção, sem que o atendente soubesse quem estava falando. “Eu me diverti muito. Tive contato com os atendentes de rádio. Incorporei o papel de ouvinte por um dia, o papel de ligar e fazer a música tocar no Brasil inteiro é muito importante na vida de todo artista. Os ouvintes que pedem a nossa música nas rádios são os protagonistas do sucesso.”

8. Acordando o prédio 2016

Veio de Cuba seu primeiro clipe internacional, rodado em Havana e com a participação do youtuber Whindersson Nunes. A direção foi do cubano Alejandro Pérez, que também assinou o vídeo de Bailando, uma parceria de Luan com Enrique Iglesias, de 2014. “Vamos acordar esse prédio / fazer inveja pro povo / enquanto eles estão indo trabalhar / a gente faz amor gostoso de novo”, diz o refrão. 

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